Quinta-feira, 28 de Abril de 2011

Esta Semana… 01|MAI|11

“… A PAZ ESTEJA CONVOSCO! …”
Domingo II da Páscoa (A)

1ª LEITURA
DO LIVRO DOS ACTOS DOS APÓSTOLOS (ACT 2, 42-47)

Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fracção do pão e às orações. Perante os inumeráveis prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos, toda a gente se enchia de temor. Todos os que haviam abraçado a fé viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam propriedades e bens e distribuíam o dinheiro por todos, conforme as necessidades de cada um. Todos os dias frequentavam o templo, como se tivessem uma só alma, e partiam o pão em suas casas; tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração, louvando a Deus e gozando da simpatia de todo o povo. E o Senhor aumentava todos os dias o número dos que deviam salvar-se.


SALMO (SL 117 (118), 2-4.13-15.22-24 (R. 1))
Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom, porque é eterna a sua misericórdia.
ou
Aclamai o Senhor, porque Ele é bom: o seu amor é para sempre.


2ª LEITURA
DA PRIMEIRA CARTA DE PEDRO (1PED 1, 3-9)

Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, na sua grande misericórdia, nos fez renascer, pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos, para uma esperança viva, para uma herança que não se corrompe, nem se mancha, nem desaparece, reservada nos Céus para vós que pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé, para a salvação que se vai revelar nos últimos tempos. Isto vos enche de alegria, embora vos seja preciso ainda, por pouco tempo, passar por diversas provações, para que a prova a que é submetida a vossa fé  muito mais preciosa que o ouro perecível, que se prova pelo fogo  seja digna de louvor, glória e honra, quando Jesus Cristo Se manifestar. Sem O terdes visto, vós O amais; sem O ver ainda, acreditais n’Ele. E isto é para vós fonte de uma alegria inefável e gloriosa, porque conseguis o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas.


3ª LEITURA
DO EVANGELHO SEGUNDO JOÃO (JO 20, 19-31)

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos». Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». Tomé respondeu-Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.
el-aliento-del-Espiritu

 

Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

Esta Semana… 10|ABR|11

“… se TU estivesses aqui! ... EU ESTOU! …”
Domingo V da Quaresma (A)

1ª Leitura
Do Livro de Ezequiel
(Ez 37, 12-14)
Assim fala o Senhor Deus: «Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo, para vos reconduzir à terra de Israel. Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor, quando abrir os vossos túmulos e deles vos fizer ressuscitar, ó meu povo. Infundirei em vós o meu espírito e revivereis. Hei-de fixar-vos na vossa terra e reconhecereis que Eu, o Senhor, o disse e o executei».

Salmo (Sl 129 (130), 1-2.3-4ab.4c-6.7-8 (R. 7))
No Senhor está a misericórdia e abundante redenção.
ou
Junto do Senhor a misericórdia. Junto do Senhor a abundância da Redenção.

2ª Leitura
Da Carta de Paulo aos Romanos
(Rom 8, 8-11)
Irmãos: Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus. Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não Lhe pertence. Se Cristo está em vós, embora o vosso corpo seja mortal por causa do pecado, o espírito permanece vivo por causa da justiça. E, se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós.

3ª Leitura
Do Evangelho Segundo João (breve)
(Jo 11, 3-7.17.20-27.33b-45)
Naquele tempo, as irmãs de Lázaro mandaram dizer a Jesus: «Senhor, o teu amigo está doente». Ouvindo isto, Jesus disse: «Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus, para que por ela seja glorificado o Filho do homem». Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro. Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente, ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava. Depois disse aos discípulos: «Vamos de novo para a Judeia». Ao chegar lá, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias. Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar, Marta saiu ao seu encontro, enquanto Maria ficou sentada em casa. Marta disse a Jesus: «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá». Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará». Marta respondeu: «Eu sei que há-de ressuscitar na ressurreição, no último dia». Disse-lhe Jesus: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá. Acreditas nisto?» Disse-Lhe Marta: «Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo». Jesus comoveu-Se profundamente e perturbou-Se. Depois perguntou: «Onde o pusestes?» Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor». E Jesus chorou. Diziam então os judeus: «Vede como era seu amigo». Mas alguns deles observaram: «Então Ele, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito que este homem não morresse?» Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo. Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada. Disse Jesus: «Tirai a pedra». Respondeu Marta, irmã do morto: «Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias». Disse Jesus: «Eu não te disse que, se acreditasses, verias a glória de Deus?» Tiraram então a pedra. Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse: «Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas falei assim por causa da multidão que nos cerca, para acreditarem que Tu Me enviaste». Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, sai para fora». O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Disse-lhes Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir». Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria, ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele.

Domingo V Tu-vida-nos-rescata-de-la-muerte

Comentário às Leituras
"- Se tu estivesses aqui... - EU ESTOU!!!"

1. Neste Domingo os catecúmenos que preparam nesta última etapa a celebração do Baptismo na Vigília Pascal, realizam o terceiro Escrutínio. A Boa-Notícia diante da qual são convidados a dizer um “SIM” é a de Jesus, Senhor da Vida, Mediador da Abundância da Vida de Deus para todos. É isso que nos anuncia o evangelista João com a catequese pascal da reanimação de Lázaro.

O Baptismo é o “mergulho” pessoal da Vida no Mistério Pascal de Jesus, uma entrega de si próprio ao Espírito de Deus que vai fazendo acontecer em nós a dinâmica da Vitória da Páscoa fazendo-nos passar dos apelos da morte aos apelos da Vida no concreto dos nossos dias, fazendo emergir o Homem Novo da derrota do Homem Velho e gerando-nos como filhos de Deus-Pai. A Vitória Pascal de Jesus é para ser vivida desde já! É isto que significa a Esperança. Não é um “optimismo” em relação a uma salvação futura, mas a antecipação confiante dessa salvação, a vivência concreta como filhos de um Deus capaz de salvar, e discípulos de um Ressuscitado. Este é o testemunho da Esperança que estamos chamados a dar sempre.

Como dizia Marta a Jesus: “Se tu estivesses aqui”… Pois nós sabemos que Jesus está! E a certeza que ele está connosco deve dar-nos a consciência de que todas as coisas se vivem de maneira diferente, deve libertar-nos do fatalismo e do medo e abrir-nos o horizonte da Liberdade e da Vitória da Vida, da Verdade, da Justiça e do Amor.

2.
A experiência original que fez nascer o Novo Testamento foi a proclamação que os primeiros apóstolos fizeram da Ressurreição de Jesus. Diziam que Deus tinha tomado o partido por ele, o tinha assumido em Si, tinha glorificado a sua Vida, exaltado a sua missão e confirmado o seu Messianismo. Fizera-o concedendo-lhe a Plenitude da Sua própria Vida Divina, partilhando-a com ele, dando-lhe a totalidade do Espírito! É isso que significa ser “sentado à direita de Deus” ou “ser entronizado”. Dizia o Apóstolo Paulo que “Jesus foi constituído Filho de Deus com poder pelo Espírito Santo, na sua Ressurreição” (Rom 1, 4)

Mas este Dom da Vida Plena do Espírito não fica “encerrado” em Jesus. Ele é o “sem pecado”, por isso, sem fronteiras dentro de si, sem egoísmo, sem cedências aos impulsos da posse e do domínio. Deste modo, a Plenitude do Espírito derrama-se, através dele, para todos aqueles com quem ele faz um: toda a Humanidade! Somos da “sua raça”, ele é o “primogénito”, o primeiro dentre nós a receber a Plenitude da Vida do Espírito, e torna-se Mediador dessa Vida para todos pela sua Fidelidade.

Esta é a Boa Notícia anunciada pela reanimação de Lázaro, símbolo da Ressurreição da Vida Humana da qual Jesus é o mediador, aquele que consegue “retirar a pedra que tapa a entrada do sepulcro”, a pedra da impossibilidade, da fatalidade, da morte…

Este Dom Salvador da Ressurreição não acontece “de fora para dentro”… Deus não nos salva com uma “bênção”, mas através de “um dos nossos”! Por isso, a nossa Salvação está mergulhada num Mistério de profunda solidariedade de Jesus com todos os seus irmãos. É essa nova maneira de entender-se a partir de Jesus que está manifesta nesta família tão sui generis de Maria, Marta e Lázaro… Sem pais, nem maridos nem esposas, sem filhos, sem chefes, sem patrões nem súbditos… Apenas Irmãos! Percebes?... É a Humanidade ao jeito de Jesus.

E Jesus vai a Betânia, que significa “Casa do Pobre”, encontra-se com toda aquela gente, e o evangelista tem o cuidado de dizer-nos que Jesus amava mesmo Lázaro, e chorou por ele, e chorou com as irmãs… Com efeito, a nossa Salvação é um Dom Pleno do Espírito de Deus que acontece dentro de um mistério profundo de comunhão solidária de Jesus connosco. Como diz a Carta aos hebreus: “De facto, temos a interceder por nós um Sumo Sacerdote como precisamos, porque também ele provou de tudo como nós”… (Heb 2, 17-18)

3.
A catequese da reanimação de Lázaro é o anúncio de Jesus Ressuscitado, Vitorioso sobre a morte pela sua Fidelidade e pelo Dom da Plenitude do Espírito que o Pai lhe concede e ele derrama sobre todos os seus irmãos. Professar a Fé neste Ressuscitado implica “mergulhar-Baptizar” a Vida na sua própria Vitória. Para esta semana, podíamos fazer-nos esta pergunta. “No concreto do meu dia-a-dia, o que significa ser discípulo de um Ressuscitado? O que implica?!”

É exactamente a esta pergunta que Paulo se refere na segunda leitura, quando diz que nós “não vivemos segundo o domínio da carne (vida exterior, marcada pelo egoísmo e pela sede de posse) mas segundo o domínio do Espírito, se é que deixamos que o Espírito de Deus nos habite”…

Deixemos, então…

by Rui Santiago, cssr in http://asoscomeles.blogspot.com/search/label/A_V_Q

Quarta-feira, 30 de Março de 2011

Esta Semana… 03|ABR|11

“… (vi)VER à luz de DEUS …”
Domingo IV da Quaresma (A)

1ª Leitura
Do Livro do Primeiro Livro de Samuel
(1Sam 16, 1b.6-7.10-13a)
Naqueles dias, o Senhor disse a Samuel: «Enche o corno de óleo e parte. Vou enviar-te a Jessé de Belém, pois escolhi um rei entre os seus filhos». Quando chegou, Samuel viu Eliab e pensou consigo: «Certamente é este o ungido do Senhor». Mas o Senhor disse a Samuel: «Não te impressiones com o seu belo aspecto, nem com a sua elevada estatura, pois não foi esse que Eu escolhi. Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração». Jessé fez passar os sete filhos diante de Samuel, mas Samuel declarou-lhe: «O Senhor não escolheu nenhum destes». E perguntou a Jessé: «Estão aqui todos os teus filhos?» Jessé respondeu-lhe: «Falta ainda o mais novo, que anda a guardar o rebanho». Samuel ordenou: «Manda-o chamar, porque não nos sentaremos à mesa, enquanto ele não chegar». Então Jessé mandou-o chamar: era loiro, de belos olhos e agradável presença. O Senhor disse a Samuel: «Levanta-te e unge-o, porque é este mesmo». Samuel pegou no corno do óleo e ungiu-o no meio dos irmãos. Daquele dia em diante, o Espírito do Senhor apoderou-Se de David.

Salmo (Sl 22 (23), 1-3a.3b-4.5.6 (R. 1))
O Senhor é meu pastor: nada me faltará.
ou
O Senhor me conduz: nada me faltará.

2ª LeituraDa Carta de Paulo aos Efésios (Rom 5, 8-14)
Irmãos: Outrora vós éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz, porque o fruto da luz é a bondade, a justiça e a verdade. Procurai sempre o que mais agrada ao Senhor. Não tomeis parte nas obras das trevas, que são inúteis; tratai antes de condená-las abertamente, porque o que eles fazem em segredo até é vergonhoso dizê-lo. Mas, todas as coisas que são condenadas são postas a descoberto pela luz, e tudo o que assim se manifesta torna-se luz. É por isso que se diz: «Desperta, tu que dormes; levanta-te do meio dos mortos e Cristo brilhará sobre ti».

3ª Leitura
Do Evangelho Segundo João (breve)
(Jo 9, 1.6-9.13-17.34-38)
Naquele tempo, Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença. Cuspiu em terra, fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego. Depois disse-lhe: «Vai lavar-te à piscina de Siloé»; Siloé quer dizer «Enviado». Ele foi, lavou-se e começou a ver. Entretanto, perguntavam os vizinhos e os que o viam a mendigar: «Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?» Uns diziam: «É ele». Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele». Mas ele próprio dizia: «Sou eu». Levaram aos fariseus o que tinha sido cego. Era sábado esse dia em que Jesus fizera lodo e lhe tinha aberto os olhos. Por isso, os fariseus perguntaram ao homem como tinha recuperado a vista. Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos; depois fui lavar-me e agora vejo». Diziam alguns dos fariseus: «Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado». Outros observavam: «Como pode um pecador fazer tais milagres?» E havia desacordo entre eles. Perguntaram então novamente ao cego: «Tu que dizes d’Aquele que te deu a vista?» O homem respondeu: «É um profeta». Replicaram-lhe então eles: «Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?» E expulsaram-no. Jesus soube que o tinham expulsado e, encontrando-o, disse-lhe: «Tu acreditas no Filho do homem?» Ele respondeu-Lhe: «Senhor, quem é Ele, para que eu acredite?» Disse-lhe Jesus: «Já O viste: é Quem está a falar contigo». O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou: «Eu creio, Senhor».

Domingo IV Ayúdanos a verte

Comentários às Leituras

1 Neste quarto domingo de Quaresma os catecúmenos que se preparam para o Baptismo na Vigília Pascal, fazem o segundo escrutínio. Vimos na semana passada o que significam e como surgiram estas etapas de “decisão”, “escolha”. A “escolha” de hoje é entre a Luz e as trevas, para utilizar a linguagem do Apóstolo Paulo na segunda leitura. A Luz significa a Vida iluminada pela Ressurreição de Jesus, a capacidade do VER novo da Fé, “Ver como Deus Vê”, podemos dizer a partir da primeira leitura.

2 O jeito de Deus manifestar as suas escolhas no seio da história de Israel está marcado pelo desconcerto que nos provoca ao tomar para si os mais pequenos, os mais inesperados segundo os nossos critérios de “valor” ou “importância”. A escolha de David é símbolo renovado disto mesmo… Todos os filhos de Jessé passaram diante do profeta que, como nós, se deixou impressionar pelo belo porte e pelo tamanho de alguns deles… Mas Deus travou o profeta…

Quando “todos” tinham passado, surge a pergunta: “Não há mais? Porque o Senhor não escolheu nenhum destes!” E a resposta de Jessé deixa-nos perceber que David, o “fedelho” que andava com o rebanho, não contava para aquelas contas… Mas era esse mesmo! Deus conta com os que não contam, porque no mistério profundo do Seu Olhar está o Amor, que transfigura todas as coisas.

3
É esse mesmo olhar que o evangelista João nos propõe ganharmos pelo mergulho (baptismo) da Vida no Espírito Santo de Jesus. A cura do cego de nascença é uma catequese catecumenal extraordinária. Começa deitando por terra uma “teoria” muito aceite na altura, pela qual todos acreditavam que as doenças e os males eram castigos de Deus pelo pecado. Até os discípulos de Jesus acreditavam nisto! E hoje, infelizmente, ainda são tantos os que acreditam… É uma das “cegueiras” de que ainda temos que ser curados, esta que nos impede de Vermos o Rosto de Deus limpo das nossas próprias lógicas, justiças, métodos e violências.

O cego é curado pelo encontro íntimo com Jesus que o Toca e o manda fazer Caminho até à Piscina de Siloé, onde deve lavar-se. O evangelista tem o cuidado de nos ajudar a interpretar os símbolos, dizendo-nos que “Siloé” significa “Enviado”. A “Água do Enviado” é o Espírito Santo, a “Água Viva” que Jesus prometeu na semana passada à Samaritana. O “mergulho (baptismo) no Espírito Santo”, celebrado na Vigília Pascal, era o fim do Caminho do Catecumenado que começara no encontro íntimo com Jesus que tinham escolhido seguir. Por isso, na Igreja primitiva os recém-baptizados se chamavam “Iluminados”, porque tinham penetrado no mistério da Luz do Ressuscitado pela qual viam todas as coisas de maneira nova.

Estes símbolos da caminhada catecumenal são para nós hoje. Porque NADA DISTO É UM “MOMENTO”, MAS SIM UMA “MANEIRA DE VIVER”! Viver disponível ao encontro transformador com Jesus, ser capaz de pôr-se a Caminho, deixar-se mergulhar na Lógica, na Vida, na Luz do Espírito Santo que no mais íntimo nos apela a seguir Jesus e nos faz capazes de o testemunharmos…

“Ver”, nos evangelhos, é sempre uma linguagem que nos remete para a Experiência Pascal. “Nós vimos!!!” Esta cura das nossas cegueiras que vai acontecendo na medida em que fazemos da nossa Fé um Caminho Baptismal permanente, torna-se um processo Pascal. É uma “maneira de viver” pela qual vamos passando do Homem Velho ao Homem Novo, do egoísmo ao Amor, da morte à Vida. É um caminho de descoberta do rosto de Jesus… Começamos por ser sempre “cegos” diante desse rosto… Se nos deixamos encontrar, tocar e o levamos a sério, então começa a mudança. Nesta catequese da cura do cego de nascença é evidente a descoberta: começa por chamá-lo “um homem”… depois, “é um profeta”… mais à frente, é “um homem de Deus”… por fim, renascido da Água Viva do Enviado e provado pelo Testemunho que deu, chama a Jesus “Senhor”, título reservado pelos judeus para falarem de Deus. Quem não fez este Caminho, como os que aparecem nesta catequese, chamam-no apenas de “esse aí” ou “o tal”…

Este Caminho de cura das cegueiras e descoberta do Rosto Pascal de Jesus que se torna fonte de Luz para Vermos bem, é também um Caminho de Transfiguração. Por isso é que até os amigos do cego depois tinham dificuldade em reconhecê-lo: “é ele… não, não é, é apenas parecido…”

Este é o principal Testemunho que o Enviado do Pai, Jesus, faz acontecer em nós! Pelo dom do Espírito Santo transfigura a nossa Vida, quando deixamos que ele a ponha a Caminho, e torna-nos sinal da presença do seu Reino, manifestação da sua Bondade, prova visível do seu poder libertador.

Como catecúmenos da Palavra de Deus, todos nós devemos reaprender também que o Anúncio do Evangelho que Jesus confia aos seus discípulos não consiste em “papaguear” doutrinas nem rezas, mas no Testemunho de uma Vida Transfigurada na sua Luz! Porque Jesus sabe bem que quando Vemos como ele Vê, Vivemos mais como ele Vive.

by Rui Santiago, cssr in http://asoscomeles.blogspot.com/search/label/A_IV_Q

Quarta-feira, 23 de Março de 2011

Esta Semana… 27|MAR|11

“… Junto ao Poço da Água Viva …”
Domingo III da Quaresma (A)

1ª Leitura
Do Livro do Êxodo (Ex 17, 3-7)
Naqueles dias, o povo israelita, atormentado pela sede, começou a altercar com Moisés, dizendo: «Porque nos tiraste do Egipto? Para nos deixares morrer à sede, a nós, aos nossos filhos e aos nossos rebanhos?» Então Moisés clamou ao Senhor, dizendo: «Que hei-de fazer a este povo? Pouco falta para me apedrejarem». O Senhor respondeu a Moisés: «Passa para a frente do povo e leva contigo alguns anciãos de Israel. Toma na mão a vara com que fustigaste o Rio e põe-te a caminho. Eu estarei diante de ti, sobre o rochedo, no monte Horeb. Baterás no rochedo e dele sairá água; então o povo poderá beber». Moisés assim fez à vista dos anciãos de Israel. E chamou àquele lugar Massa e Meriba, por causa da altercação dos filhos de Israel e por terem tentado o Senhor, ao dizerem: «O Senhor está ou não no meio de nós?»

Salmo (Sl 94 (95), 1-2.6-7.8-9 (R. cf 8))
Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações.

2ª Leitura
Da Carta de Paulo aos Romanos
(Rom 5, 1-2.5-8)
Irmãos: Tendo sido justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual temos acesso, na fé, a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos, apoiados na esperança da glória de Deus. Ora, a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. Dificilmente alguém morre por um justo; por um homem bom, talvez alguém tivesse a coragem de morrer. Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.

3ª Leitura
Do Evangelho Segundo João (longa) (Jo 4, 5-42)
Naquele tempo, chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José, onde estava a fonte de Jacob. Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço. Era por volta do meio-dia. Veio uma mulher da Samaria para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-Me de beber». Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. Respondeu-Lhe a samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana?» De facto, os judeus não se dão com os samaritanos. Disse-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva». Respondeu-Lhe a mulher: «Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo: donde Te vem a água viva? Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, com os seus filhos e os seus rebanhos?» Disse-Lhe Jesus: «Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede. Mas aquele que beber da água que Eu lhe der nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente que jorra para a vida eterna». «Senhor, — suplicou a mulher — dá-me dessa água, para que eu não sinta mais sede e não tenha de vir aqui buscá-la». Disse-lhe Jesus: «Vai chamar o teu marido e volta aqui». Respondeu-lhe a mulher: «Não tenho marido». Jesus replicou: «Disseste bem que não tens marido, pois tiveste cinco e aquele que tens agora não é teu marido. Neste ponto falaste verdade». Disse-lhe a mulher: «Senhor, vejo que és profeta. Os nossos antepassados adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar». Disse-lhe Jesus: «Mulher, podes acreditar em Mim: Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vai chegar a hora — e já chegou — em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são esses os adoradores que o Pai deseja. Deus é espírito e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade». Disse-Lhe a mulher: «Eu sei que há-de vir o Messias, isto é, Aquele que chamam Cristo. Quando vier, há-de anunciar-nos todas as coisas». Respondeu-lhe Jesus: «Sou Eu, que estou a falar contigo». Nisto, chegaram os discípulos e ficaram admirados por Ele estar a falar com aquela mulher, mas nenhum deles Lhe perguntou: «Que pretendes?» ou então: «Porque falas com ela?» A mulher deixou a bilha, correu à cidade e falou a todos: «Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias?» Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus. Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo: «Mestre, come». Mas Ele respondeu-lhes: «Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis». Os discípulos perguntavam uns aos outros: «Porventura alguém Lhe trouxe de comer?» Disse-lhes Jesus: «O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e realizar a sua obra. Não dizeis vós que dentro de quatro meses chegará o tempo da colheita? Pois bem, Eu digo-vos: Erguei os olhos e vede os campos, que já estão loiros para a ceifa. Já o ceifeiro recebe o salário e recolhe o fruto para a vida eterna e, deste modo, se alegra o semeador juntamente com o ceifeiro. Nisto se verifica o ditado: ‘Um é o que semeia e outro o que ceifa’. Eu mandei-vos ceifar o que não trabalhastes. Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho». Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus, por causa da palavra da mulher, que testemunhava: «Ele disse-me tudo o que eu fiz». Por isso os samaritanos, quando vieram ao encontro de Jesus, pediram-Lhe que ficasse com eles. E ficou lá dois dias. Ao ouvi-l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher: «Já não é por causa das tuas palavras que acreditamos. Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».

 

Jesús-y-la-samaritana

Comentário às Leituras
"Junto ao Poço da Água Viva"

Na Igreja primitiva, como sabemos, o Baptismo era uma celebração de adultos. Era o Sinal (Sacramento) pelo qual uma pessoa entrava de maneira total na Comunidade Cristã passando, a partir daí, a sentar-se à Mesa, no primeiro dia da semana, para a Escuta da Palavra e a Fracção do Pão.

Para isto havia um Catecumenado, isto é, uma preparação, uma introdução progressiva daqueles que queriam Baptizar-se no Mistério Pascal de Jesus. Este Catecumenado durava, normalmente, entre um e dois anos. Depois, o Baptismo acontecia na Vigília Pascal, a celebração mais solene do ano. Foi neste contexto que surgiu esta “quarentena” que ainda hoje fazemos, como preparação mais intensa do que vai acontecer na Vigília Pascal: o Baptismo (mergulho) no Mistério Pascal de Jesus, a Vitória da Fidelidade, sua e de Deus. A Quaresma nasceu na Igreja primitiva como um Tempo Catecumenal, um tempo de renovação de todas as motivações para sermos cristãos e consciência da dinâmica do Baptismo no Espírito Santo a acontecer no nosso íntimo. Nasceu como o tempo decisivo das escolhas daqueles que estavam a tornar-se cristãos.

Só depois, quando o cristianismo se tornou mesmo religião oficial do Império Romano, no final do séc. IV, é que as coisas começaram a mudar mais… Foram acabando as pequenas comunidades e as suas celebrações e foi surgindo a lógica do culto nas basílicas… Foi acabando o Catecumenado… Quem nascia num Império Cristão, nascia já cristão! Só faltava Baptizar… Começa a ser comum o que antes era uma excepção: o Baptismo de crianças…

Com o fim do Catecumenado, que só podia acontecer no contexto de uma Igreja de Comunidades, foi acabando a consciência que para ser cristão era preciso TORNAR-SE CRISTÃO! Passou a ser-se cristão quase por nascimento, por cultura, por herança… Não te soa familiar tudo isto?

Foi a partir daqui que estes quarenta dias que vivemos até á Vigília Pascal deixaram de ser, infelizmente, um tempo Catecumenal, e se tornaram num tempo Penitencial. Acho que talvez pudéssemos, pelo menos no nosso íntimo, mas também na vivência das comunidades concretas, dar este tom à Quaresma: um tempo Catecumenal, de renovação das motivações para o seguimento de Jesus, um tempo especialmente memorial do Baptismo no Espírito cuja celebração sacramental recordaremos na Vigília da Luz, um tempo para nos TORNARMOS CRISTÃOS, como permanentes catecúmenos diante da Palavra de Deus.

Por isso, nas próximas três semanas os evangelhos da nossa Eucaristia serão os propostos aos Catecúmenos que estão a preparar-se mais imediatamente para o baptismo na Vigília Pascal. São propostos estes Evangelhos como Escrutínios, ou seja, como Escolha, Decisão: “Queres ou não queres?!”

O primeiro Evangelho a ser proposto como Escrutínio-Escolha-Decisão é o conhecido relato da Samaritana. “Queres ou não queres desta Água Viva que é o Espírito Santo?! Queres ou não queres viver desta Água Viva?! Queres ou não queres libertar-te de outras ‘águas’ e outros ‘poços’ em que muitas vezes andas mas não têm Água Viva nem te fazem encontrar o teu Senhor?! Queres ou não queres?!”
Esta é a escolha…

O encontro de Jesus com a Samaritana é uma catequese grandiosa sobre a Nova e Eterna Aliança que Deus sela connosco pelo Dom do Espírito Santo, na Ressurreição de Jesus. A Samaritana é figura simbólica de Israel, e Jesus encontra-a “junto ao poço”… Encontrar “junto ao poço” é o símbolo bíblico mais antigo para falar do desposório, da Aliança. Sempre que alguém se encontra “junto ao poço”, na bíblia, casa-se! Assim é também aqui… Em Jesus, o Cristo, Deus encontra de novo o Seu Povo “junto ao poço”, desposa-o de novo e para sempre numa Aliança que não mais acabará.

A infidelidade está revelada na linguagem dos “maridos”… Os cinco são exactamente os cinco grandes impérios sob os quais Israel tinha estado oprimida até então, “e o que tens agora também não é teu” (o império romano). O Dom do Espírito, por Jesus, é um Dom de Libertação do nosso Deus, cura das nossas infidelidades, perdão das nossas idolatrias, libertação das nossas submissões. Por isso a mulher pode “deixar o cântaro para trás” e renascida da Água Viva do Poço da Aliança correr a dar testemunho.

O testemunho que dá é o do encontro surpreendente com Jesus que se vai conhecendo progressivamente. Começa por chamá-lo “Tu, judeu”… Depois, “Vejo que és um Profeta”… Depois ainda, “Não será ele o Messias?!” Por fim, todos ao encontrarem Jesus pelo intermédio do testemunho da mulher exclama: “É o Salvador do Mundo!”

É sempre uma história de amizade e revelação o que iniciamos quando nos aproximamos também do Poço da Aliança, da Fonte da Água Viva do Espírito Santo que é Jesus. Deus está permanentemente disposto a renovar todas estas experiências connosco. SEMPRE!

Que esta “quarentena” que temos o privilégio de viver nos encontre mais disponíveis a este “encontro junto ao poço”, a este diálogo de Jesus connosco, do que a outras “preocupações quaresmais” que a nossa vida já nos provou, ano após ano, não mudarem rigorosamente nada dentro de nós…

Porque a mudança acontece quando podemos proclamar como aquela mulher: “Encontrei-o! Conheceu-me! Disse-me tudo o que eu fiz! E sem me julgar, amou-me assim.”

by Rui Santiago, cssr in http://asoscomeles.blogspot.com/search/label/A_III_Q

Quarta-feira, 16 de Março de 2011

Esta Semana… 20|MAR|11

“… afinal, por que Tendas costumamos andar?…”
Domingo II da Quaresma (A)

1ª Leitura
Do Livro do Génesis
(Gen 12, 1-4a)
Naqueles dias, o Senhor disse a Abrão: «Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti uma grande nação e te abençoarei; engrandecerei o teu nome e serás uma bênção. Abençoarei a quem te abençoar, amaldiçoarei a quem te amaldiçoar; por ti serão abençoadas todas as nações da terra». Abrão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.

Salmo (Sl 32 (33), 4-5.18-19.20.22 (R. 22))
Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia.
ou
Dai-nos a vossa misericórdia, de Vós a esperamos, Senhor.

2ª Leitura
Da Segunda Carta de Paulo a Timóteo
(2Tim 1, 8b-10)
Caríssimo: Sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus. Ele salvou-nos e chamou-nos à santidade, não em virtude das nossas obras, mas do seu próprio desígnio e da sua graça. Esta graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, desde toda a eternidade, manifestou-se agora pelo aparecimento de Cristo Jesus, nosso Salvador, que destruiu a morte e fez brilhar a vida e a imortalidade, por meio do Evangelho.

3ª Leitura
Do Evangelho Segundo Mateus
(Mt 17, 1-9)
Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João seu irmão e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele. Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O». Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito. Então Jesus aproximou-se e, tocando-os, disse: «Levantai-vos e não temais». Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus. Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

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Comentário às Leituras
"...afinal, por que Tendas costumamos andar?..."

1. Abraão nem podia imaginar o alcance da Promessa de Deus… Deus prometia-lhe que, pelo caminho da sua fidelidade, o próprio Deus faria chegar a Sua Bênção, o Seu Amor de Eleição, a uma multidão incontável como as areias de todas as praias… Abraão, símbolo bíblico da obediência da Fé, não respondeu, não perguntou, não disse nada: “FEZ como Deus lhe tinha dito…” Nesta obediência rasgou caminho para a história do Povo de Deus, aquele que havia de gerar no seu seio Jesus. Será na sua Ressurreição que Deus realizará plenamente o que tinha começado a prometer a Abraão: o Dom Universal do Seu Amor como Bênção, ou seja, como princípio de Vida e Salvação.

2.
Esta é a Boa Notícia que todos os Apóstolos de Jesus estão chamados a anunciar: que Deus é Fiel e realiza na Ressurreição de Jesus a plenitude dessa Fidelidade derramando sobre toda a Humanidade o Espírito Santo, Espírito do Seu Filho que nos faz filhos também, e nos ensina a clamar: “Abba! Papá!” Esta era a “graça preparada desde toda a eternidade em Cristo Jesus”, a graça já prometida a Abraão e aos Patriarcas do Antigo Testamento, a Graça já segredada aos Profetas antigos, mas que só na Vitória Pascal de Jesus, quando ele “como Salvador destruiu a morte e fez brilhar a Vida e a imortalidade”, se tornou manifesta. Esta é a Boa Notícia, o Evangelho que anunciamos, diz S. Paulo na segunda leitura.

3.
É esta mesma Boa Notícia que está proclamada no evangelho com a linguagem nossa conhecida da Transfiguração. A Ressurreição de Jesus é a sua definitiva Transfiguração, e o “brilho dessa luz” ilumina e recria toda a história de Deus connosco.

Todo o brilho, o alto do monte, a nuvem que envolve, a brancura, são símbolos bíblicos típicos para falar da proximidade de Deus. Na Ressurreição de Jesus – que é o que está representado neste episódio – acontece o cume da História da Salvação: a Antiga Aliança chega ao “alto do monte” com Jesus, “passa-lhe o testemunho” e desaparece. E, então, a Nova Aliança é inaugurada solenemente na Transfiguração-Ressurreição de Jesus pelo próprio Deus: “Este é o Meu Filho muito amado, no qual ponho todo o Meu encanto; escutai-o!”

Moisés e Elias representam todo o Antigo Testamento, na medida em que são o rosto visível da Lei e dos Profetas. Pedro queria “montar três tendas”… A Tenda simboliza na bíblia o lugar de encontro, particularmente com Deus, desde os tempos em que era numa Tenda que estava a Arca da Aliança durante a caminhada do deserto. Chamava-se mesmo “Tenda do Encontro”.

Pedro queria montar três Tendas: uma para a Lei, outra para as Profecias, outra para Jesus. O evangelista acrescenta que “Pedro não sabia o que dizia”… A Lei (Moisés) e as Profecias (Elias) desaparecem, e fica só Jesus! Ele é a única “Tenda do Encontro” com Deus, o Caminho, a Porta… A Antiga Aliança cumpriu a sua missão, preparou a “subida ao monte”, mas agora pode dizer com o velho Simeão: “Agora, Senhor, o teu servo já pode descansar em paz, porque os meus olhos já viram a tua Salvação, a luz que se vai revelar às nações…” (Lc 2, 29-32) Jesus Ressuscitado é “a única tenda”, o “Templo da Nova Aliança”, o “ponto de encontro” com o Deus nele revelado…

Desta maneira, compreendemos que talvez esta catequese da Transfiguração de Jesus se revista de uma grande actualidade e até provocação para nós… se nos fizermos esta pergunta: “Afinal, por que ‘Tendas’ costumamos andar?...”

Temos uma semana inteira para pensar nisto… BOA SEMANA!

by Rui Santiago, cssr in http://asoscomeles.blogspot.com/search/label/A_II_Q

Quarta-feira, 9 de Março de 2011

Esta Semana… 13|MAR|11

“... onde abundou o pecado, superabundou a Graça ...”
Domingo I da Quaresma (A)

1ª Leitura
Do Livro do Génesis
(Gen 2, 7-9; 3, 1-7)
O Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo. Depois, o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, a oriente, e nele colocou o homem que tinha formado. Fez nascer na terra toda a espécie de árvores, de frutos agradáveis à vista e bons para comer, entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. Ora, a serpente era o mais astucioso de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: «É verdade que Deus vos disse: ‘Não podeis comer o fruto de nenhuma árvore do jardim’?» A mulher respondeu: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus avisou-nos: ‘Não podeis comer dele nem tocar-lhe, senão morrereis’». A serpente replicou à mulher: «De maneira nenhuma! Não morrereis. Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal». A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência. Colheu o fruto e comeu-o; depois deu-o ao marido, que estava junto dela, e ele também comeu. Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos. Por isso, entrelaçaram folhas de figueira e cingiram os rins com elas.

Salmo (Sl 50 (51), 3-4.5-6a.12-13.14.17 (R. cf. 3a))
Pecámos, Senhor: tende compaixão de nós.

2ª Leitura
Da Carta de Paulo aos Romanos (breve)
(Rom 5, 12.17-19)
Irmãos: Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram. Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida. De facto, como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornarão justos.

3ª Leitura
Do Evangelho Segundo Mateus
(Mt 4, 1-11)
Naquele tempo, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Demónio. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». Então o Demónio conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». De novo o Demónio O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’». Então o Demónio deixou-O e logo os Anjos se aproximaram e serviram Jesus.

20110313

Comentário às Leituras
"Onde abundou o pecado, superabundou a Graça"

1. Os relatos da Criação, da Tentação e da Desobediência de Adão e Eva não podem ser entendidos “à letra”, porque foram escritos como símbolos da condição humana de todos os tempos. São um óptimo “espelho” para todos os tempos e sociedades… também para nós! A “Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal” é um símbolo da arbitrariedade, ou seja, da capacidade que temos de escolher o que é bem e o que é mal segundo a nossa própria vontade e interesse…

Quem “colhe desta árvore”, ou seja, coloca os critérios de bem e mal sob o seu próprio interesse, cai na armadilha do Egoísmo. O Egoísmo é o fruto que se colhe da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. O Egoísmo é a raiz de todo o pecado, porque conduz à auto-protecção, mesmo que tenha que recorrer à violência ou à separação do outro. É isso que significa “eles viram que estavam nus, e taparam-se”. Esta “nudez” primordial é símbolo da Verdade relacional. “Estar nu” diante do outro significa ser Verdadeiro, autêntico. Mostrar toda a Verdade e Diferença ao outro, e isso não ser um problema, nem causa de separação nem desconfiança. Mas o Egoísmo mata a Verdade e a Autenticidade, porque fecha a pessoa sobre si própria. É isso que significa “taparam-se”: esconderam-se um do outro, cobriram a Verdade que os unia, não se acolheram…

Tudo isto é “obra da serpente”, um dos símbolos bíblicos do mal que, dentro de nós, precisamos de vencer. A tentação surge na nossa mente como uma insinuação que nos faz ver mal as situações, discerni-las mal e, por isso, agir no sentido contrário do bem…

Esta linguagem simbólica da Árvore no centro do jardim, do fruto, da nudez, da serpente são uma maneira muito simples e profunda para nos darmos conta de como esta história se repete tantas vezes na nossa própria Vida, não é?...

2. Mas em Jesus de Nazaré experimentamos uma Fidelidade que supera todas as nossas infidelidades, como diz o Apóstolo Paulo na segunda leitura: “Onde abundou o pecado, superabundou a Graça!”

Em contraponto à infidelidade que gera o pecado, o evangelho narra-nos a fidelidade que se torna Caminho para Deus. Evidentemente não estamos a imaginar Jesus a andar a “passear” com o “mafarrico”, com corninhos e rabinho, pelo deserto, e até à torre mais alto do Templo e ao cimo de um monte… Mas, então, porque é que o evangelista utiliza estes símbolos?

Na língua original do Novo Testamento, o grego, a palavra “diabo” significa “divisão, ruptura, afastamento”. É essa a experiência que acontece em Jesus, no seu íntimo. Uma experiência de divisão, discernimento (simbolizada no deserto), ruptura e afastamento de algo… Mas, do quê?!

Jesus de Nazaré tinha feito a experiência da Eleição messiânica no baptismo do Jordão. Mas, que Messias é que Deus o chamava a ser?... Tal como era esperado?! Jesus não se identificava com essas expectativas, mais preocupadas com o Reino político de David, do que com o Reino de Deus animado pelo Espírito Santo… Por isso, antes de iniciar a sua Missão Messiânica, há que discernir e decidir. O símbolo bíblico destas “preparações” para os acontecimentos importantes é o número 40, que aparece em várias partes do Antigo Testamento. O Messias era esperado com os sinais visíveis da RIQUEZA, do SUCESSO e do PODER. É isso que significam as três tentações… Jesus recusa estes sinais do Messias, e inaugura em si próprio um novo messianismo, não dos Homens mas do Espírito! Deus confirma a sua opção, assume-a, toma partido por ela. É isso que significam os mensageiros (anjos) que vêm confortá-lo.

Vemos, assim, quais são as opções que Deus confirma… Este pode ser um tempo especial para nós próprios vivermos experiências íntimas de “ruptura, afastamento, discernimento”, com a mesma seriedade que Jesus. Sabendo, desde já, que está por nós aquele que venceu definitivamente sobre o poder da morte e do pecado!

O Ressuscitado derramou sobre nós a Força do Espírito Santo que nos gera para uma Vida que o pecado não mata. Esta é a Força que nos habita, a Esperança que nos anima, a Fé que, no fundo, nos torna invencíveis quando deixamos que Deus seja em nós mais forte que nós próprios, como Jesus…

by Rui Santiago, cssr in http://asoscomeles.blogspot.com/search/label/A_I_Q

Quarta-feira, 2 de Março de 2011

Esta Semana… 06|MAR|11

“... há coisas que não se “EXPLICAM”, não há? ...”
Domingo IX do Tempo Comum (A)

1ª Leitura
Do Livro do Deuteronómio
(Deut 11, 18.26-28.32)
Moisés falou ao povo nestes termos: «As palavras que eu vos digo, gravai-as no vosso coração e na vossa alma, atai-as à mão como um sinal e sejam como um frontal entre os vossos olhos. Ponho hoje diante de vós a bênção e a maldição: a bênção, se obedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus, que hoje vos prescrevo; a maldição, se não obedecerdes aos mandamentos do Senhor vosso Deus, afastando-vos do caminho que hoje vos indico, para seguirdes outros deuses que não conhecestes. Portanto, procurai pôr em prática todos os preceitos e normas que hoje vos proponho».

Salmo (Sl 30 (31), 2-3a.3bc-4.17.25 (R. 3b))
Sede o meu refúgio, Senhor.

2ª Leitura
Da Carta de Paulo aos Romanos
(Rom 3, 21-25a.28)
Irmãos: Independentemente da Lei de Moisés, manifestou-se agora a justiça de Deus, de que dão testemunho a Lei e os Profetas; porque a justiça de Deus vem pela fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os crentes. De facto não há distinção alguma, porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus; e todos são justificados de maneira gratuita pela sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus, que Deus apresentou como vítima de propiciação, mediante a fé, pelo seu sangue, para manifestar a sua justiça. Na verdade, estamos convencidos de que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei.

3ª Leitura
Do Evangelho Segundo Mateus
(Mt 7, 21-27)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Nem todo aquele que Me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos Céus, mas só aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus. Muitos Me dirão no dia do Juízo: ‘Senhor, não foi em teu nome que expulsámos demónios e em teu nome que fizemos tantos milagres?’ Então lhes direi bem alto: ‘Nunca vos conheci. Apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade’. Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; mas ela não caiu, porque estava fundada sobre a rocha. Mas todo aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é como o homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; ela desmoronou-se e foi grande a sua ruína».

20110306

Comentário às Leituras
"Há coisas que não se “explicam”, não há?..."

É típica da espiritualidade judaica esta linguagem dos “dois caminhos”: felicidade para quem cumpre a vontade de Deus, maldição para quem a rejeita. Com muita facilidade caímos nos extremos… Uns, continuando a agarrar-se à “letra” destas expressões em nome de um Deus que, claramente, não tem nada que ver com Jesus de Nazaré. Outros, rápido demais também, dizem que isto é coisa velha e não tem ponta de verdade…

Mas, afinal, o que está por baixo disto? A certeza, na Fé, de que a vontade de Deus a nosso respeito coincide sempre com o nosso máximo bem!
Pela Fé experimentamos que a presença de Deus e a nossa pertença ao Seu Amor são fonte de Bondade, Alegria, Paz, Sabedoria e Felicidade. Porque os apelos de Deus no nosso íntimo coincidem com as necessidades mais fundamentais do Coração Humano para se construir e realizar como projecto de felicidade: a verdade, a justiça, o amor, a compaixão, a partilha, a reconciliação…

Por isso, temos que entender que recusar a vontade de Deus é uma realidade muito mais profunda do que negar um determinado credo ou declarar-se ateu de determinadas imagens de Deus, por muito “católicas” que sejam. É pena, aliás, que muitos católicos não sejam mais ateus de uns quantos “deuses” que por aí andam às vezes embrulhados em devoções, festarolas, rituais e crendices que não têm nada de cristão, ainda que lhe roubem o nome!

Aceitar ou recusar a vontade de Deus torna-se um caminho de felicidade ou de maldição na medida em que isso significa aceitar ou recusar os apelos da humanização que acontecem no íntimo da consciência humana. Estou a lembrar-me daquele famoso Filho Pródigo. Recordas-te? Ele experimentou ou não o castigo por ter saído da casa do Pai? Não sentiu ele na pele a maldição gerada pela sua opção de afastamento do Pai? Ai não que não sentiu, coitado… Mas, nessa parábola que Jesus contou, o castigo ou a maldição foram acção do Pai sobre o Filho? Não, pois não? O castigo e a maldição aparecem-nos no Evangelho como consequência do pecado, não como “justiça” de Deus. De Deus devemos esperar o perdão e o acolhimento que recria.

Só assim podemos entender também o que nos diz tantas vezes S. Paulo quando nos fala da “justiça” de Deus que nos “justifica”. Não é uma justiça à nossa moda, que julga; a justiça de Deus justifica, ou seja, torna-nos justos, ajusta-nos a Si, à Sua vontade, ao Seu projecto eterno de nos ter felizes e realizados à Sua imagem e semelhança segundo o Amor. A Justiça de Deus é a acção não-desistente da Sua Bondade para connosco a ajustar-nos à Sua imagem, a tornar-nos justos a Jesus Ressuscitado, configurados com ele na condição de filhos bem amados!

Tenho a certeza que o Deus de Jesus está mais “preocupado” em ver-nos felizes e verdadeiros do que em ver-nos na missa! Para Deus é muito mais importante a nossa Felicidade que o nosso credo. Desde a Igreja primitiva que podemos saborear, como discípulos de Jesus, que “a glória de Deus é o Homem Vivo”! É uma pena que o sintamos tão poucas vezes…

Recusar a vontade de Deus é, acima de tudo, recusar o que Deus propõe, demitir-se do que Deus ama, e afastar-se do que Deus habita. Isto corresponde a uma maneira de viver, discernir, actuar, e não simplesmente a uma maneira de rezar, celebrar liturgicamente ou professar a fé em dogmas.

É disso que Jesus fala no pedaço de evangelho que hoje proclamamos: “Nem todo aquele que me DIZ ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas só aquele que FAZ a vontade do meu Pai que está nos Céus.”

DIZER… FAZER…

Aqui entre nós… Achas mesmo que são precisas explicações sobre o que isto quer dizer?!... Pois… Também me parece que não…

Logo a seguir, Jesus utiliza a imagem da casa edificada sobre a rocha e sobre a areia. O confronto é o mesmo: “é como aquele que OUVE e PÕE (ou não…) EM PRÁTICA!.

OUVIR… PÔR EM PRÁTICA…

Também não é suposto explicar o que isto quer dizer, pois não?!

Grande Abraço! Boa semana…

by Rui Santiago, cssr in http://asoscomeles.blogspot.com/search/label/A_IX_TC

Domingo, 27 de Fevereiro de 2011

Olhos nos olhos com Cristo


"Olhos nos olhos com os outros. Já que Ele está em todo o lado e mora aconchegado nos nossos corações, saibamos vê-lo no nosso dia-a-dia; vê-Lo não só nas pessoas, mas em tudo o que é Criação de Deus.

Hoje acordei e nos raios de Sol vi Cristo, vi-O beijar as plantas tal e qual o Pai fizera nos primeiros dias da Terra. E beijou-me a alma, que sorriu e fez sorrir os olhos, e também na boca se desenhou um sorriso. A esse sorriso levei-o para a escola e aí, ao fazer os outros felizes, vi Cristo em todos eles e soube que eles O viam em mim.

No outro dia choveu, estava cinzento e fazia muito, muito frio. Tudo parecia menos bom mas logo se desenhou no céu um arco-íris e andar à chuva já não era desconfortável, o doce aroma da Terra molhada apurou-me os sentidos e senti-me bem. Foi Jesus.

Numa tarde vi, no jardim, um senhor que levava num colo um bebé, devia ser seu neto. Passeava com ele e falava-lhe, provavelmente contando-lhe histórias fantásticas ou dizendo-lhe simplesmente o quão quentes eram as cores das flores que os rodeavam. Também ali vi Cristo, algures entre a voz experiente do avô, a inconsciência feliz da criança e as cores que saíam do jardim.

O dia não me estava a correr bem, como muitos outros de uma vida que teimamos em complicar. Sentei-me um pouco numa esplanada enquanto pensava que Deus se esquecera de mim porque nunca mais calhava a lotaria que tanta falta me fazia. Deus às vezes parece estar a dormir... De repente passou uma senhora perto do café; também ela teria os seus problemas, a sua vida. Olhou-me nos olhos e pareceu conhecer-me, a mim e às minhas lamentações. E os olhos dela abraçaram os meus, um abraço de compreensão, um microsegundo de carinho. Carinhos de Deus.

Dia a dia, em pequenas coisas, Deus vai renovando o seu amor por nós e envia-nos o Seu Filho. Habituámo-nos a cobrar a Deus as coisas más da vida, e por meio de velas e silêncios e imagens acostumamo-nos a amá-lo, um amor interesseiro, com condições. Mas o Pai dá-nos tanto. E só nos pede que o amemos! Mas um amor às claras. E para amarmos Deus temos que amar quem está ao nosso lado, à nossa frente, em nosso redor, porque é exactamente a mesma coisa. Olhos nos olhos com os outros, estamos olhos nos olhos com Cristo. "
Obrigado Margarida e Diogo pela vossa partilha!

Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011

Esta Semana… 27|FEV|11

“... o que significa “CONFIAR” ...”
Domingo VIII do Tempo Comum (A)

1ª Leitura
Do Livro de Isaías
(Is 49, 14-15)
Sião dizia: «O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-Se de mim». Poderá a mulher esquecer a criança que amamenta e não ter compaixão do filho das suas entranhas? Mas ainda que ela se esquecesse, Eu não te esquecerei.

Salmo (Sl 61 (62), 2-3.6-7.8-9ab (R. 6a))
Só em Deus descansa, ó minha alma.

2ª Leitura
Da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios
(1Cor 4, 1-5)
Irmãos: Todos nos devem considerar como servos de Cristo e administradores dos mistérios de Deus. Ora o que se requer nos administradores é que sejam fiéis. Quanto a mim, pouco me importa ser julgado por vós ou por um tribunal humano; nem sequer me julgo a mim próprio. De nada me acusa a consciência, mas não é por isso que estou justificado: quem me julga é o Senhor. Portanto, não façais qualquer juízo antes do tempo, até que venha o Senhor, que há-de iluminar o que está oculto nas trevas e manifestar os desígnio dos corações. E então cada um receberá da parte de Deus o louvor que merece.

3ª Leitura
Do Evangelho Segundo Mateus
(Mt 6, 24-34)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro. Por isso vos digo: «Não vos preocupeis, quanto à vossa vida, com o que haveis de comer ou de beber, nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; o vosso Pai celeste as sustenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Quem de entre vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à sua estatura? E porque vos inquietais com o vestuário? Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam; mas Eu vos digo: nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. Se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao forno, não fará muito mais por vós, homens de pouca fé? Não vos inquieteis, dizendo: ‘Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir?’ Os pagãos é que se preocupam com todas estas coisas. Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso. Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado».

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Comentário às Leituras

Como é que se explica a palavra “Confiança”? Ora cá está uma boa pergunta… O profeta Isaías fala-nos do amor entranhado de uma mãe, e diz que Deus supera em Amor todo o amor maternal que possamos imaginar… Jesus de Nazaré fala-nos de pássaros que não semeiam nem ceifam e de flores que não trabalham nem fiam…

E como havemos de fugir do perigo de deixar ficar tudo isto na “poesia”?!

“O Senhor abandonou-me, Deus esqueceu-se de mim!” É com estas palavras que o profeta Isaías exprime o sentimento que existia nas gentes do seu povo, no fim do exílio na Babilónia. Conhecemos bem o que estas palavras significam…

“Eu nunca te esquecerei!”, promete Deus… Mas, na prática, como podemos fazer a experiência disso?

Amigos… Eu sei que este blog costuma ser de “explicação” das leituras de Domingo, mas deixem-me dizer-vos a verdade: eu hoje não faço a mínima ideia do que hei-de “explicar”, porque também eu ando à procura do segredo da Confiança no mais íntimo de mim. Tenho a certeza que esta Confiança em Deus a que o profeta Isaías e Jesus nos convidam não é nenhuma magia que facilite a vida… tenho a certeza que é uma maneira de viver e relacionar-se com Deus que muda o modo como vivemos e nos relacionamos com tudo e com todos.

E, se a Confiança é uma maneira de me relacionar, torna-se importante eu descobrir qual é a minha parte nesta relação, o que é que me compete a mim?! Sim, Deus é como Mãe que não esquece nem abandona o fruto das suas entranhas… Mas o que significa eu Confiar como este filho? Quais os segredos?...

Sim, Deus é como o Criador generoso e atento que não deixa de olhar com ternura toda a Sua Criação, e muito mais desvelo revela certamente por mim que sou Seu filho, imagem e semelhança Sua… Mas, na prática dos meus dias, coo é que eu hei-de viver este apelo de Jesus: “Não vos preocupeis com o amanhã… Os pagãos é que se preocupam com essas coisas”?…

Desculpem, Amigos, estar a fazer hoje tantas perguntas, mas já percebi que nestas coisas as respostas fáceis não costumam levar-nos longe…

“Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”… Jesus vai dizendo coisas destas a um ritmo que nem dá quase para respirar! O que significa “servir a Deus”? O que significa “servir ao dinheiro”? No concreto dos meus dias… Estas palavras parece que ganham vida quando as tiramos da sua compostura no meio das páginas da bíblia e as deixamos assim a bailar-nos diante dos olhos…

“Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário?” Sim, Jesus, a vida é muito mais do que aquilo que tenho, mas… como educar dentro de mim esta fome de “ter” que me faz perseguir tantas coisas e maneiras servis de as conquistar? Ajuda-me, Mestre…

“Procurai primeiro o Reino de Deus, e a sua Justiça, e tudo o resto vos será dado por acréscimo!” Procurar primeiro o Reino e a sua Justiça… Oh Mestre, não podias dar tudo o resto primeiro? Assim como garantia… É que eu tenho tão pouco jeito para me confiar assim, como me estás a provocar… Não?! Pronto, tenho que acreditar que tu é que sabes mesmo o que é melhor para mim…

Jesus, é para ti que me volto… Não me preocupo hoje – pelo menos hoje! – com o que hei-de comer, o que hei-de beber, o que hei-de vestir… Pergunto-te: “O que hei-de fazer?! Como hei-de fazer?!” para que o teu Evangelho não me fique pousado nos ouvidos como poesia, mas me penetre até à raiz do Coração de modo a moldar o meu rosto e os meus gestos.

E partilho com todos os meus irmãos e irmãs que me lêem, Mestre, este nosso diálogo e esta minha procura… Porque espero sinceramente que também eles sintam dentro de si as mesmas dúvidas e necessidades. Assim, quem sabe, por esta partilha todos chegamos a compreender melhor os segredos da arte da Confiança, da Paz e da Firmeza. “A cada dia basta o seu cuidado!”, terminaste tu…

Deixa-me, então, pedir-te só mais isto: Cuida de mim, está bem?! Cuida de nós.

by Rui Santiago, cssr. in http://asoscomeles.blogspot.com/search/label/A_VIII_TC

Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

Esta Semana… 20|FEV|11

“... querido inimigo. a ti também te Amo! ...”
Domingo VII do Tempo Comum (A)

1ª Leitura
Do Livro do Levítico (Lev 19, 1-2.17-18)
O Senhor dirigiu-Se a Moisés nestes termos: «Fala a toda a comunidade dos filhos de Israel e diz-lhes: ‘Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo’. Não odiarás do íntimo do coração os teus irmãos, mas corrigirás o teu próximo, para não incorreres em falta por causa dele. Não te vingarás, nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor».

Salmo
(Sl 102 (103), 1-2.3-4.8.10.12-13 (R. 8a))
O Senhor é clemente e cheio de compaixão.
ou
Senhor, sois um Deus clemente e compassivo.

2ª Leitura
Da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 3, 16-23)
Irmãos: Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é santo, e vós sois esse templo. Ninguém tenha ilusões. Se alguém entre vós se julga sábio aos olhos do mundo, faça-se louco, para se tornar sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus, como está escrito: «Apanharei os sábios na sua própria astúcia». E ainda: «O Senhor sabe como são vãos os pensamentos dos sábios». Por isso, ninguém deve gloriar-se nos homens. Tudo é vosso: Paulo, Apolo e Pedro, o mundo, a vida e a morte, as coisas presentes e as futuras. Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus.

3ª Leitura
Do Evangelho Segundo Mateus (Mt 5, 38-48)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Olho por olho e dente por dente’. Eu, porém, digo-vos: Não resistais ao homem mau. Mas se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda. Se alguém quiser levar-te ao tribunal, para ficar com a tua túnica, deixa-lhe também o manto. Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pedir e não voltes as costas a quem te pede emprestado. Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. Eu, porém, digo-vos: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem, para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus; pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos. Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem a mesma coisa os publicanos? E se saudardes apenas os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não o fazem também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito».

20110220

Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

Esta Semana… 13|FEV|11

“... sim, sim! não, não! ...”

Domingo VI do Tempo Comum (A)

1ª Leitura

Do Livro de Ben-Sirá (Sir 15, 16-21 (15-20))

Se quiseres, guardarás os mandamentos: ser-lhe fiel depende da tua vontade. Deus pôs diante de ti o fogo e a água: estenderás a mão para o que desejares. Diante do homem estão a vida e a morte: o que ele escolher, isso lhe será dado. Porque é grande a sabedoria do Senhor, Ele é forte e poderoso e vê todas as coisas. Seus olhos estão sobre aqueles que O temem, Ele conhece todas as coisas do homem. Não mandou a ninguém fazer o mal, nem deu licença a ninguém de cometer o pecado.

Salmo (Sl 118 (119), 1-2.4-5.17-18.33-34 (R. 1b))

Ditoso o que anda na lei do Senhor.

2ª Leitura

Da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 2, 6-10)

Irmãos: Nós falamos de sabedoria entre os perfeitos, mas de uma sabedoria que não é deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que vão ser destruídos. Falamos da sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que já antes dos séculos Deus tinha destinado para a nossa glória. Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu; porque se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória. Mas, como está escrito, «nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam». Mas a nós Deus o revelou por meio do Espírito Santo, porque o Espírito Santo penetra todas as coisas, até o que há de mais profundo em Deus.

3ª Leitura

Do Evangelho Segundo Mateus (breve) (Mt 5, 20-22a,27-28,33-34a.37)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus. Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra o seu irmão será submetido a julgamento. Ouvistes que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração. Ouvistes ainda que foi dito aos antigos: ‘Não faltarás ao que tiveres jurado, mas cumprirás os teus juramentos para com o Senhor’. Eu, porém, digo-vos que não jureis em caso algum. A vossa linguagem deve ser: ‘Sim, sim; não, não’. O que passa disto vem do Maligno».

el-amor-da-plenitud-a-la-pa

Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2011

Esta Semana… 06|FEV|11

Domingo V do Tempo Comum (A)

1ª Leitura

Do Livro de Isaías (Is 58, 7-10)

Eis o que diz o Senhor: «Reparte o teu pão com o faminto, dá pousada aos pobres sem abrigo, leva roupa ao que não tem que vestir e não voltes as costas ao teu semelhante. Então a tua luz despontará como a aurora e as tuas feridas não tardarão a sarar. Preceder-te-á a tua justiça e seguir-te-á a glória do Senhor. Então, se chamares, o Senhor responderá, se O invocares, dir-te-á: ‘Aqui estou’. Se tirares do meio de ti a opressão, os gestos de ameaça e as palavras ofensivas, se deres do teu pão ao faminto e matares a fome ao indigente, a tua luz brilhará na escuridão e a tua noite será como o meio-dia».

Salmo (Sl 111 (112), 3-5.6-7.8a e 9 (R. 4a))

Para o homem recto nascerá uma luz no meio das trevas.

2ª Leitura

Da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 2, 1-5)

Quando fui ter convosco, irmãos, não me apresentei com sublimidade de linguagem ou de sabedoria a anunciar-vos o mistério de Deus. Pensei que, entre vós, não devia saber nada senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. Apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor e a tremer deveras. A minha palavra e a minha pregação não se basearam na linguagem convincente da sabedoria humana, mas na poderosa manifestação do Espírito Santo, para que a vossa fé não se fundasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus.

3ª Leitura

Do Evangelho Segundo Mateus (Mt 5, 13-16)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Vós sois o sal da terra. Mas se ele perder a força, com que há-de salgar-se? Não serve para nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, onde brilha para todos os que estão em casa. Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».

iglesia-sal

Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

Esta Semana… 30|JAN|10

“... a ousadia do Reino de Deus ...”

Domingo IV do Tempo Comum (A)

1ª Leitura

Da Profecia de Sofonias (Sof 2, 3; 3, 12-13)

Procurai o Senhor, vós todos os humildes da terra, que obedeceis aos seus mandamentos. Procurai a justiça, procurai a humildade; talvez encontreis protecção no dia da ira do Senhor. Só deixarei ficar no meio de ti um povo pobre e humilde, que buscará refúgio no nome do Senhor. O resto de Israel não voltará a cometer injustiças, não tornará a dizer mentiras, nem mais se encontrará na sua boca uma língua enganadora. Por isso, terão pastagem e repouso, sem ninguém que os perturbe.

Salmo (Sl 145 (146), 7.8-9a.9bc-10 (R. Mt 5, 3))

Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus.

ou:  Venha o Senhor: é Ele o Rei Glorioso.

2ª Leitura

Da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 1, 26-31)

Irmãos: Vede quem sois vós, os que Deus chamou: não há muitos sábios, naturalmente falando, nem muitos influentes, nem muitos bem-nascidos. Mas Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo para confundir os sábios; escolheu o que é vil e desprezível, o que nada vale aos olhos do mundo, para reduzir a nada aquilo que vale, a fim de que nenhuma criatura se possa gloriar diante de Deus. É por Ele que vós estais em Cristo Jesus, o qual Se tornou para nós sabedoria de Deus, justiça, santidade e redenção. Deste modo, conforme está escrito, «quem se gloria deve gloriar-se no Senhor».

3ª Leitura

Do Evangelho Segundo Mateus (Mt 5, 1-12a)

Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se. Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los, dizendo: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

bienaventurados
Comentário às Leituras

"A Ousadia do Reino de Deus"

“Ao ver a multidão, Jesus subiu a um monte. Depois sentou-se e os seus discípulos aproximaram-se dele. Então, tomou a palavra e começou a ensinar…” É assim que o evangelista introduz todo o Ensinamento da Montanha com o qual Jesus inicia a sua Missão Messiânica. No pano de fundo de todo este “cenário” vemos claramente Moisés subindo ao Monte Sinai para trazer ao povo em libertação a instrução de Deus, em forma de mandamentos. Deus dava ao Povo uma Lei para que se comportasse como Povo! Agora, no novo e definitivo Monte de Jesus de Nazaré, o Cristo, Deus não dá uma Lei. Deus dá a Esperança!

Sim! A Esperança é a força transformadora de toda a realidade e a certeza da fidelidade de Deus! A Esperança Teologal é muito mais que um optimismo… é a força que faz construir e antecipar aquilo que se espera! Por isso Jesus abre o grande Ensinamento da Montanha com a proclamação das Bem Aventuranças, que são a expressão mais ousada e profética da Esperança, por parte de Deus e do Homem.

As Bem Aventuranças são a “Lei da Nova Aliança”. Já não somos escravos de mandamentos, mas sim discípulos da Esperança e servos de um Mundo Novo que se chama Reino de Deus. A “lógica da Lei” implica a observância, o cumprimento; a “lógica do Espírito” implica a vigilância, a atenção, como Jesus tantas vezes dizia: “Estai vigilantes… Estai atentos… Aprendei a ler os Sinais dos Tempos…” (Mc 13, 35; Mt 16, 3) Porque a Lei diz sempre o que há a fazer e a não-fazer, mas na “lógica do Espírito” é preciso estar sempre vigilante e atento para “ir lendo” a realidade que fala, apela e compromete os que têm o Coração ao jeito de Cristo!

Sem esta Vigilância no Espírito não há compromisso com a Justiça, nem com a Verdade, nem com a Liberdade, nem com nada nem ninguém! Os Profetas nunca são distraídos!

As Bem Aventuranças de Jesus são a proclamação da Carta Magna do Reino de Deus que é o “mundo ao contrário”! O Mundo em que se é Feliz optando pela Pobreza de Coração, que é uma maneira bonita de dizer a Liberdade diante de tudo e a Disponibilidade para com todos!
O Mundo em que se é Feliz quando se experimenta a Compaixão como comunhão interior com aqueles que sofrem e presença consoladora que não se deixa tentar pelas receitas fáceis nem pelas superficialidades beatas.

O Mundo em que se é Feliz quando se é Manso, que é uma maneira de chamar a um Coração despossuído e livre de desejos de dominar ou mandar nos outros.
O Mundo em que se é Feliz quando não se aceita ser Feliz sozinho e se assume a causa da Justiça Universal como uma luta não-violenta contra os motivos e os autores da desigualdade entre os Homens.
O Mundo em que se é Feliz quando ainda há Misericórdia, isto é, a experiência de que há casos e causas que ainda nos fazem revolver as entranhas e correr ao seu encontro num abraço consolador e libertador.
O Mundo em que se é Feliz procurando a Pureza do Coração e a Limpeza da Mente, em vez de nos tornarmos uns aos outros escravos de leis puritanas e regras da sensatez que nos moldam os comportamentos mas não nos tornam mais Humanos, como Jesus dizia daqueles fariseus que “lavavam o exterior de todas as coisas, mas tinham o interior sempre podre”! (Mt 23, 25)
O Mundo em que se é Feliz construindo a Paz que assenta na certeza de que deixa de ser um problema sermos diferentes quando aprendemos a tratar-nos e amar-nos como iguais!
O Mundo em que se é Feliz sofrendo pelas causas certas, sendo perseguido pelos injustos por causa da edificação da Justiça que é o reconhecimento da dignidade fundamental de todas as pessoas.

O Reino de Deus é este Mundo inaugurado por Jesus pela dinâmica do Espírito Santo e confiado aos seus discípulos na sua Ressurreição. O anúncio evangélico da Ascensão de Jesus ao Céu, que é o anúncio da Ressurreição como mistério de “escondimento” no seio de Deus, proclama aos discípulos de Jesus de todos os tempos esta missão de continuar a construção do Reino, porque “do Céu já Cristo tratou”: “Homens da Galileia, porque estais aí a olhar para o céu?!” (Act 1, 11)

É aqui e agora que esse Mundo Novo está a germinar… O Céu que Jesus prometeu e “estreou” na sua Ressurreição é a plenitude do Reino de Deus, mas é na história que os seus discípulos devem comportar-se como Povo a Caminho desse Reino, vivendo e construindo a história com critérios de Ressurreição e Horizontes de Esperança Eterna.

Felizes os discípulos de Jesus que já perceberam que não há “outra vida depois desta”, mas sim esta Vida que vivemos e construímos divinamente transfigurada! Felizes os discípulos de Jesus que deixaram de “olhar para o céu”, os que finalmente se cansaram de esperar piedosamente “outro mundo” e começaram profeticamente a transformar este! Sim, porque o “outro mundo” que Jesus promete é este “mundo outro”, ou seja, recriado, renascido da entrega corajosa dos profetas da Palavra e dos servos do Espírito.

O que distingue os discípulos de Cristo na história não são os seus ritos, as suas roupas, as suas culturas, as suas devoções ou as suas cores… A originalidade dos cristãos no mundo é a sua FÉ naquilo em que o Deus de Jesus Cristo acredita, a sua ESPERANÇA naquilo em que o Deus de Jesus Cristo Se compromete e o seu AMOR por aquilo que o Deus de Jesus Cristo ama!

Talvez o grande apelo deste domingo seja exactamente este… Entrarmos no Coração do Mestre, aprendermos a olhar com os seus olhos para agir como se fôssemos as suas próprias mãos. Ninguém está fora deste desafio que o Evangelho nos lança. O Apóstolo Paulo, na segunda leitura, é claro a dizer-nos que não há desculpas, desde que “Deus escolhe o que é louco e o que é fraco” aos olhos do mundo, para fazer acontecer a Sua Vontade. Quem dera que, sentindo-nos mesmo escolhidos, deixássemos de fazer das Bem-Aventuranças apenas uma “poesia” para contar às nossas crianças da catequese…

by Rui Santiago, cssr in http://asoscomeles.blogspot.com/2008/01/ousadia-do-reino-de-deus-03fev2008.html