Provavelmente, se perguntássemos aos primeiros discípulos de Jesus, ou até ao próprio Jesus, se ele se reconhecia como o Emanuel anunciado por Isaías, a resposta seria que nunca tinham pensado nisso, mas que até era uma ideia interessante. Podemos percorrer todas as páginas do Novo Testamento, só encontraremos o nome de Emanuel por uma vez - em Mateus 1,23. Mesmo no próprio Evangelho de Mateus não voltaremos a encontrar este nome ou título atribuido a Jesus. Jesus terá sido reconhecido e proclamado de diversos modos - Mestre, Senhor, até como o Messias sobretudo depois da sua Ressurreição; mas não como o Emanuel.
Isto mostra-nos mais uma vez como o próprio mistério de Jesus, o seu mistério pessoal, é algo de muito rico e profundo; tão profundo, que fica aberto à experiência e reflexão de cada evangelista, e Mateus decidiu dar o seu cunho pessoal, ao apresentar a Jesus como o Emanuel anunciado por Isaías. Não há uma fórmula, uma expressão, um slogan que esgote este mistério...
Já conhecemos um bocadinho sobre este Emanuel anunciado por Isaías em Is 7,14; não se trata, para o profeta, de algo que acontecerá um dia longínquo, que não se pode prever, nem se trata de imaginar (impossível para um judeu) que venho o próprio Deus "cá à terra". O seu pensamento é ascendente, não descendente, ou seja: Isaías parte de um acontecimento perfeitamente sensivel e palpável - o nascimento do filho do rei israelita Acaz, cerca do ano 734 a.C. - para, num contexto de desespero em que está em causa a sobrevivência de Israel às mãos da invasão da Assíria (um povo do actual norte do Iraque), reconhecer a fidelidade e a presença de Deus. Isaías olha para um acontecimento simples e vê nele um sinal - neste menino, o próprio Deus dá um sinal a Acaz de que não pode desesperar, o reinado de Israel está assegurado através de um descendente.
E Isaías vai mais longe, como um bom profeta que, sem deixar de estar bem atento à realidade e de a conhecer em todas as suas experiências negativas, continua a anunciar o Projecto de Deus que ganha contornos de um sonho: um sonho de Paz.
«Porque a bota que pisa o solo com arrogância
e a capa empapada em sangue
serão queimadas e serão pasto das chamas.
Porquanto um menino nasceu para nós,
um filho nos foi dado» (Is 9,4-5).
e a capa empapada em sangue
serão queimadas e serão pasto das chamas.
Porquanto um menino nasceu para nós,
um filho nos foi dado» (Is 9,4-5).
Enganou-se Isaías? O que terá acontecido, provavelmente, é que Isaías não se terá dado conta de como o seu anúncio de Paz, a sua esperança na Fidelidade de Deus, fariam escola. Ou seja, as suas palavras nunca mais seriam esquecidas, as gerações seguintes não deixariam de se reconhecer nesta profecia. Se quisermos um exemplo mais actual, imaginemos um caso como o de Luther King: a sua vida foi dedicada a uma situação concreta, a do racismo nos EUA nos anos 60; no entanto, o seu ideial, o seu projecto continuam, e muitas gerações continuam a rever-se nele e a acreditar nele - pela riqueza e verdade deste projecto, que ultrapassa o próprio Luther King! Com a profecia de Isaías sobre o Emanuel terá acontecido algo de parecido.
E chegamos a Mateus. Também não passaria pela cabeça de Mateus pensar no Emanuel como "um ser divino que cai à terra"; pelo contrário, trata-se de olhar para uma pessoa concreta, Jesus de Nazaré, olhar para a sua vida, e proclamar como o fará Pedro nos Actos dos Apóstolos: «Passou fazendo o bem e curando todos os possuídos pelo mal, porque Deus estava com ele» (Act 10,38). Deus estava com Ele = Emanuel. N'Ele, está connosco, que n'Ele recebemos o bem e n'Ele somos libertos do mal.
Nos Evangelhos aconteceu uma coisa muito diferente do que era normal naquela altura: quando surgia uma personagem famosa, como Alexandre Magno ou César Augusto, começavam a circular histórias sobre os seus nascimentos. Histórias fantásticas, que envolviam sempre o divino, para justificar a importância e o poder destas figuras. É possível que qualquer coisa deste género também começasse a circular sobre Jesus.
E aí vemos o Evangelho de Marcos a ignorar, pura e simplesmente, a questão do nascimento de Jesus. De Paulo também não temos muita sorte: por ele sabemos que Jesus «nasceu de uma mulher (brilhante conclusão!), e nasceu sob o domínio da lei (judaica)» (Gal 4,4). Nada mais. Se lermos atentamente os Evangelhos, as origens de Jesus são até motivo para não reconhecer n'Ele alguém com uma missão especial: «De Nazaré pode sair alguma coisa boa?» pergunta Natanael a Filipe (Jo 1,46).
Isto pode apontar-nos como as origens simples, comuns, até desconhecidas de Jesus, de quem pouco ou nada sabemos sobre os seus primeiros 30 anos (para quem terá vivido 33 anos, trata-se de quase toda a vida!), não são contrárias ao seu mistério pessoal, rico, grande, profundo. Não será isto verdadeiramente o Emanuel, Deus connosco, na sua vida, nos nossos dias, simples, comuns, normais, até desconhecidos? Não nos permitirá isto olhar hoje de maneira muito especial para acontecimentos tão simples e tão especiais como o nascimento da Inês ou do Simão?
Emanuel. Mateus começa e termina o seu Evangelho com este Nome. No início, reconhecendo neste Homem, neste Filho, a presença e o sinal de Deus que se revelarão ao longo daqueles (mais ou menos) três anos «em que passou fazendo o bem». No fim, e aqui é que entra o essencial, quando o Ressuscitado promete, aos seus discípulos, que «Eu estarei convosco sempre, até ao fim do mundo» (Mt 28,20, última frase do Evangelho). Não deixará de ser o Emanuel. O Ressuscitado não é um Ausente. Tornou-se, pela sua Ressurreição, o verdadeiro Presente, presente de Presença e presente de Dom. Presença Universal. Por isso não precisa de "vir outra vez", e deixou bem claro, entre muitos modos, como o acolhemos hoje:
«Quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu,
ou doente, ou na prisão, e não te socorremos?’
Ele responderá, então: ‘Em verdade vos digo:
Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos,
foi a mim que o deixastes de fazer.» (Mt 25,44-45).
Portanto, quando a nossa lógica sobre o Emanuel passar de "um ser divino descido à terra" para a descoberta da Presença de Deus nos sinais e nas pessoas, esta Missão tornar-se-á muito mais natural.
Emanuel. O Sonho de Isaías nunca foi esquecido. Parece, talvez, que o próprio Deus não se esqueceu desse Sonho, e tornou-o realidade. Mateus relembrou-o apontando para Jesus, e nós agradecemos-lhe isso. Emanuel, Deus Connosco. João utilizará outra palavra, mais "cara", mas também a mais básica se olharmos para o seu sentido: Encarnação. Tornou-se Carne, que em sentido bíblico significa Humanidade, e Humanidade em todas as suas dimensões, não apenas as espirituais ou religiosas.
Paulo utilizará outra palavra: Filho. É um Filho, "muito amado, o predilecto" (Mc 1,11) por Deus, um Filho gerado num Amor pleno do qual Maria e José são mediações, como todos os pais são chamados a ser. Um Filho em quem encontramos a Força de Deus, não força de poder mas Força de Serviço, de Cura, de Libertação (Mc 5,30). O seu Espírito. O Espírito que a nós nos torna Filhos também. Porque Deus não sabe reservar nada para si - é o Emanuel, o Deus Connosco, o Deus para nós, o Deus da Graça.
«Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho,
nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei,
para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei,
a fim de recebermos a adopção de filhos.
E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações
o Espírito do seu Filho, que clama: "Abbá! - Pai!"
Deste modo, já não és escravo, mas filho;
e, se és filho, és também herdeiro, por graça de Deus.» (Gal 4,4-7)
Um grande abraço e Bom Natal!
a Caminho
Rui Pedro cssr
P.S.: se porventura quiserem e puderem, deixo algumas propostas para aprofundar este Mistério do Natal:
1) «Em bicos de pés, em sonhos, em silêncio» (comentário de António Couto ao Evangelho deste domingo)
2) «Mensagem de Natal» (de Michael Brehl, superior-geral da CSsR)
3) «Jesus Cristo e a Plenitude dos Tempos» (do nosso pe.Santos)


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